troubled decree * resident mockery * has claimed thee
sujeitos de atribuição
1.
fazer um céu fora de horas
é destino para os deuses
:assim sendo
resta-me apenas a natureza
humana
deste tempo
(para ti, claro)
2.
coleccionar essa matéria natural das ideias com a paciência infinita de um bicho de conta e dizer
:eis o mistério da fé
saber-se imaginário repositório de papéis
fingidas babéis e
ainda assim
elevar os braços
vou enrolar-me nos teus e dizer
:graças
(henrique, o transumante da insónia)
3.
parir-me-te de um pão de sementes e distribui-lo parcimoniosamente
entre os convidados para a ceia do corpo
eis como tudo se nos começa
e como tudo está certo. porque
:se a blasfémia invadir
o nome que é o nosso que sobrará
para amassar as águas do corpo?
não cobiçaremos mais que a parte lêveda
de nós
: amor.
(ana, minha ana)
4.
se por um momento a minha voz se elevasse e eu pudesse subir por esse teu rio acima e tão certamente suceder à noite
como o dia em tempo certo
agora eu vinha e dizia
porque sim, te amo
e o rio como água reflexiva recebendo a pedra do pensamento trazia-te
e agora tu vinhas e dizias
eu também, eu também, eu também
furando essa coisa negra maldita que é a eternidade e o tempo
:sobram-me mãos
e sobram-me olhos. e a minha é a voz de quem
soprando nomes ao vento
recebe na face o próprio cuspo
não sei como chamar-te sem que
o peito abra uma enorme ferida e eu
sangrando estas palavras
me esvaia de ti
(jorge, das minhas extensas madrugadas)
5.
diz lá como as ricas meninas sonham com lares de ruidosas pantufas e risquinhos na parede a fazer de maridos e beijam a cal fria e lascada dos dias que crescem e elas com eles e devagar bem devagarzinho descobrem a íntima palavra: amor. o seu regaço ainda por inventar esconde os segredos todos de todas as mulheres e eu
menina ainda por crescer revelo
:pudessem todas essas mães perfilhar um só pensamento e
o mundo seria redondo
(joão afonso, o bombyx)
6.
o caminho que se faz fazendo não é mais que uma serpente mordendo a cauda. circulares são as memórias que o pó dos dias debrua
e na estrada
por muito que te custe
levas-me às cavalitas
(miguel cardina, a estrada mais adiante)
7.
dos teus olhos caem-me ninhos casas de entretecidos desperdícios dos dias das gentes e do mundo coisas de tão ser mulher que só no segredo de nós sabemos do seu nome
: novelos de dedos pão de mamas e os restos ensanguentados e translúcidos da deglutição do amor. digo-te há qualquer coisa de muito meu no quente do teu cheiro e no quente da tua cona e
as minhas mãos imaginam-te um corpo
e eu
com a forma exclusiva de um pensamento
recorto o ar
e penetro-te.
(mjm, a minha baby de babylónia)
8.
imagino-te um mundo assim em photomaton um corpo sépia pisando em cada rua de cada uma das cidades dos invisíveis afectos uma calçada de braços e abraços e carícias e
nos muros em que as heras são boquinhas de dar beijinhos tu que escreves adeus-adeus como quem por de trás de translúcidas janelas adivinha o regresso da pessoa
amada
(paulo, o mundo todo imaginado)
9.
quase
adivinho que tu
como a adília
não rapas os sovacos. o que me deixa
completa
mente
entristecida. digo,
enternecida
(rui costa, musa sem férias)
10.
esta é a pedra fundadora da minha casa
aquela em que pus
toda a minha complacência
:lasca a lasca
todos os pensamentos aqui confluem
e brilham como verdades felizes
a quem o tempo deu uma cor que nos aquece
melhor
sob sol da manhã
:é o amor
e a maior de todas as edificações.
saber escolher a primeiríssima pedra
é arte que roubamos aos deuses
(micas, no lado esquerdo do corpo)
11.
não são apenas gordas as processionárias. disse
eu
é que elas seguem por uma risca
de seiva madura e quente
quase às cegas devorando
os limites em que um corpo
se desfaz do ser vegetal
e lança aos céus uma natureza
própria
da terra.
não são apenas gordas as processionárias.
disse
eu
são assim como que um carreirinho de
pessoas
como nós
em busca do momento em que o corpo se desfaz do ser animal
e lança aos céus
dois abraços de grito
alguma seiva muito antiga
e a natureza da sua própria terra.
(p., cinzel, esculpindo-me as ideias)
12.
fosse para ti uma amêndoa
desejaria
do óleo mais doce que te perfumasse
o corpo e te aveludasse
o gosto. frutos assim querem-se comidos
lenta
lentamente
como o labor do outono nas folhas do corpo
ou de um bicho que escava a toca.
(nuno, frutos secos mais apetecidos)
13.
que parva era
eu
quando as minhas docmaertens pisavam as mesmas calçadas
da mesma cidade sem saber que
rua a rua
casa a casa
andavas por lá homem na cidade
com tanto para me dizer
agora o tempo amareleceu todas essas palavras
e os marcos de correio já não são cogumelos vermelhos. não escrevemos cartas
neste tempo e eu
confesso-te que não sou boa
a teclar
ainda assim
espero que estejas bem
eu vou indo
obrigada
(saber que existes
mesmo aqui à distância de um ícone que
se abre
como duas folhinhas de uma carta
dá-me essa ideia feliz que não estou
novamente
sozinha)
(joaquim, respiro-te o mesmo ar)
14.
anda lá vamos fazer amor
eu sei
não é fácil o amor
também conheço essa canção e
digo-te
: não há nada de novo aqui
apenas um homem
uma mulher
um corpo ampulheta as areias em que o tempo
toma a forma
quase improvável
de um grão de pó
dançam os pós com a luz da manhã
:não há mal
nenhum que venha ao mundo
quando dois corpos que reconhecem
pelo tacto e se dão em
duas bocas líquidas e
dois suores em que a música acentua o gosto
e o cheiro faz deslizar as mãos e a vontade e
a minha
é apenas a vontade do
bicho arrancado às tripas do dia
para fender em duas metades a escuridão
do mundo.
É que desconfio que
a natureza do mal é isso mesmo
:apenas a solidão
isso e roer uma maçã sem lhe sentir o doce
(luis, sabemos a natureza do mal)
15.
Já te disse margarete que nos anoiteceres em que a vida se amargura com o desmaiado doce da cidade os olhos caem-me em pratos de iguarias com nomes improváveis e eu penso desejaria ser poliglota para deglutir sem pensar estas coisas em que assim te dás, ó deus ou sofrer mesmo daquela doença que nos transforma em grandes cabeças com dois olhos e uma boca e pelo meio um pensamento? já te disse margarete que dizer presente e saber que se está mesmo no mundo que pensamos que é meu e que só o meu mundo é o mundo e este pensamento é fodido pela estranheza de entrar no teu mundo e ver que o teu é o meu e o meu o teu?já te disse?
(margarete, que me sei )
16.
lumén
do mais avermelhado corpo
eu desfolho-te
página a página
lambendo devagar os dedos meus
que te hão-de aflorar a pele
de uma palavra
:assim te escreves sob o meu olhar
(encandescente. só. e basta assim)
17.
antes que me deite e feche os olhos
ponho a jeito
o teu nome por detrás das pálpebras
e ensalivo a boca
:se te chamar
a meio da noite
serás que vens?
e se vieres
serás lily serás rose
serás esse mistério que é só de mulher?
(lilyrose, perfumada vénus das minhas madrugadas)
18.
que dizer do ponto em que se alonga
uma recta
do concreto abstracto ponto
em que a imponderabilidade do universo
se quebra e duas mãos se tocam?
:há qualquer coisa de muito por dizer
de um momento em que o tempo
fugindo à medição
faz coincidir duas rectas paralelas
(abstractoconcreto, versoanversoreverso)
19.
ávida e larga
a estrada que percorremos quando
certa noite em sintra
buscávamos o lugar para o nosso
imaginado piquenique. os dias engoliram
o sol e essa era a condição
para um belo e
delicioso acontecer.
já lá regressei
ao lugar das pedras que falam e dos abraços
e uma lágrima pequena brotava de um carreiro
entre fetos reais
e mimosas em flor. não sei mais que te
dizer
talvez só que sinta saudades.
(jorge, a vida é larga, as mãos são nossas)
20.
da arte em fuga recolho-te as mãos
:moldarei a próxima face
do próximo amor
feito à medida de um corpo
em que caiba a palavra
tu
(delarte. para nunca te perder)
21.
não, não é o corpo algo mais vísivel que o sangue que o percorre
olha bem
vês? estes ribeiros de palavras correndo no vale entre as minhas mamas? estas pedras-dor embranquecendo os meus cabelos? os sulcos que o tempo racha na minha cara não são nomes que reconheces? e não é solidão os pentelhos com que a minha cona se veste?
e se nada disto te for visível
cuspo-te o meu coração
(corpo visível, amoramigo)
22.
já não sei da alice. veio uma tarde
e esborratou o desenho
a pastel e o que sobrou foram
apenas
uns sapatinhos de cristal. Dois.
já não sei da alice. nem ela de mim.
(alice mora aqui, linda de vestidinho de cetim e fitinhas no cabelo)
23.
No mar há peixes e em cada barriga de cada peixe, se procurares bem, vai
O outro mar que os peixes engoliram.
Nunca o peixe foi tão grande que o não pudessemos comer.
(aly, porque há tanto mar)
24.
era um homem com importância. E
muita.
E quando um homem com importância
Entra na minha vida
Eu
Que sou uma mulher que sabe a importância
Das coisas não importantes da vida
Abro a porta de casa
Estendo uma cadeira
Ponho na mesa a melhor toalha
Rendada e cheirosa
Preparo-me em refeição para não botar defeito
E dou-me a comer
Inteirinha
(ilídio soares, a importância de se chamar homem)
25.
sobram-me áfricas no corpo e por desvelar
as luzes coadas
do deserto nos meus olhos.
sei que me montarás suavemente a madrugada e
se te estender a mão
subiremos juntos o kilimanjaro
(bintex, ambos pretos, pretos de negritude)
26.
numa tarde em que o cacilheiro se reinventou aqui
em lisboa e o cais das cebolas cheirava a uma multidão apressada eu
e tu
falávamos do amor. as ondinhas breves do rio batendo nas colunas de pedra
quase pareciam um eco: amor, mor, mor,
é tão linda lisboa à distãncia de uns anos
(fernando, escrita ibérica, jangadas de bites)